sexta-feira, 30 de abril de 2021

Marrocos

aquarela de Annamélia

Poesia deTagore

Tu me fizeste conhecido

De amigos que eu não conhecia

 

Tu me destes lugares

em casas que não eram minhas

 

Tu trouxeste para perto o que estava longe

e do estrangeiro fizestes meu irmão.

 

Sofre meu coração quando tenho

de deixar meu refúgio habitual;

eu me esqueço de que aí,

o que é velho habita o que é novo

e que aí tu habitas também.

 

Pelo nascimento e pela morte

neste e em outros mundos,

onde quer que me conduzas,

és tu o mesmo, o companheiro único

de minha vida sem fim,

que com laços de alegria

sempre une ao alheio o meu coração. 

quarta-feira, 10 de março de 2021

Melodia do Vivido

poesia Nello Rangel

Aquarela  Anna Amélia



Meu marido teve alta da terapia antes de mim.

Mas não era ele o destrambelhado?

Eu me demorei mais no tratamento.

E ele troçava, vitorioso.

Num tempo mais adiante sonhei que voava.

Todo o céu a meu dispor.

Sobrevoava as crianças que fui,

as cidades que vivi,

as memórias que chorei.

Qualquer direção estava aberta para mim,

planando na melodia do vivido.

Contei o sonho na terapia.

Meu marido não troçou mais.

 


quinta-feira, 12 de novembro de 2020


Sertão 

poema de João Cabral de Melo Neto
"Morte e Vida Severina"  (trecho)

Aquarela; Annamélia


"De sua formosura

já venho dizer:

é um menino magro,

de muito peso não é,

mas tem o peso de homem,

de obra de ventre de mulher.

 

De sua formosura

deixai-me que diga:

é uma criança pálida,

é uma criança franzina,

mas tem a marca de homem,

marca de humana oficina.

 

Sua formosura

deixai-me que cante:

é um menino guenzo

como todos os desses mangues,

mas a máquina de homem

já bate nele, incessante.

 

Sua formosura

eis aqui descrita:

é uma criança pequena,

enclenque e setemesinha,

mas as mãos que criam coisas

nas suas já adivinha.


terça-feira, 3 de novembro de 2020

 

REVOADA

 Poema Nello Rangel
Aquarela Annamélia


Descobri maravilhado, há muitos anos,

 o corredor de andorinhas de Ouro Preto.

Descobri ao mesmo tempo o motivo obvio

 do nome da cachoeira em que estávamos.

Lá, onde a pedra do jacaré avança, solitária e esguia,

 por sobre o abismo,

Lá, onde estávamos sentados eu, Ivan e Witer,

os pés balançavam pendurados no ar,

admirávamos as andorinhas que chegavam aos montes,

em voos extraordinários.

Muito jovens, eu e meus amigos,

prontos a nos lançarmos ao ar solto do futuro,

cheios de esperanças e temores,

mimetizados em libertos seres alados.

Éramos, contudo, bem distintos daquele turbilhão de pássaros

de um azul profundo.

Elas voam sem igual,

rápidas,em bruscas curvas,

resolutas e impávidas,

minúsculos colossos.

Andorinhas não temem.


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

 


Alegoria lll

Poema Nello Rangel

Aquarela Annamélia

 

Um querido vocifera

Contra o evidente.

Um irmão tem absoluta certeza

Do que absolutamente não é.

Um amigo tenta atenuar o

Absurdo que segue.

Uma mãe, um pai, um filho,

Um vizinho, um colega, um parente,

um conhecido.

Tantos e tantos e tantos.

Tantos outros perguntam o que dizer.

Alguns tentam brincar.

Outros ironizam.

Há aqueles que tentam argumentar.

Quase todos quedam tristes.

Emudecidos.

Algumas coisas não têm nome?

 

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sábado, 10 de outubro de 2020

 

O FOGO NO PANTANAL

Aquarela de Annamélia

Poema de Nello Rangel

(adaptado de Vinicius de Morais)

Pensem nos indígenas...

Mudos telepáticos

Pensem nas indiazinhas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Do fogo, do fogo

Do fogo indecente

Do fogo criminoso

Do fogo famélico

Estúpido e inválido

O fogo com cirrose

O anti-vida crônico

Sem luz sem graça

Sem força sem nada.


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

 

Queimada

Poema de Nello Rangel
Aquarela de Annamélia


Não vê?
Não enxerga?
Não consegue enxergar?
Não vê por que dói?
Sente vergonha?
Não quer admitir?
Não vê nada demais?
Desde o início
tudo foi dito.
Estava lá,
a violência escancarada.
Era previsível.
É irreparável.